Os planos da Amazon de alimentar os seus centros de dados nos EUA com energia nuclear encontraram um obstáculo significativo. A Comissão Federal Reguladora de Energia (FERC) rejeitado um acordo que teria permitido à Amazon extrair mais energia da usina nuclear de Susquehanna, na Pensilvânia. A alteração proposta teria aumentado a carga co-localizada de 300 para 480 MW, uma medida que os reguladores argumentaram que poderia comprometer a fiabilidade da rede e potencialmente aumentar os custos de energia para outros utilizadores.
A decisão, tomada em 1º de novembro, seguiu objeções das concessionárias American Electric Power (AEP) e Exelon. Estas empresas argumentaram que o acordo revisto da Amazon com a PJM Interconnection, o operador regional da rede, carecia de justificação adequada e daria tratamento preferencial aos centros de dados da Amazon, impactando a disponibilidade e fiabilidade energética em toda a rede.
O papel da planta Susquehanna
A usina nuclear Susquehanna, operada pela Talen Energy, tem capacidade de 2,5 GW e está localizada na Pensilvânia. No início deste ano, a Amazon adquiriu o complexo de data center Cumulus próximo à fábrica de Susquehanna por US$ 650 milhões. A Amazon planejou expandir as instalações, adicionando mais de uma dúzia de novos data centers para sua subsidiária em nuvem, Amazon Web Services (AWS), durante a próxima década. Esta expansão exigiu um aumento da capacidade de carga, o que levou à apresentação de um Contrato de Serviço de Interconexão (ISA) alterado com a PJM.
No entanto, a FERC concluiu que as alterações propostas carecem das provas necessárias para justificar uma expansão tão significativa na capacidade de carga. A comissão observou que, embora a PJM afirmasse que poderia fornecer a energia solicitada sem afectar a estabilidade da rede, qualquer procura acima da marca de 480 MW poderia causar violações da capacidade de produção, ameaçando assim a estabilidade do sistema energético global.

Preocupações com a confiabilidade da rede
As empresas de serviços públicos AEP e Exelon expressaram preocupações relativamente às implicações potenciais dos planos da Amazon sobre a fiabilidade da rede. Salientaram que não existiam medidas claras em vigor para monitorizar e gerir a retirada de energia da rede pelo complexo do centro de dados. Além disso, foram levantadas questões sobre a justiça do acordo proposto, com a AEP e a Exelon argumentando que poderia levar a um aumento de custos para outros utilizadores da rede PJM.
Google se torna nuclear para turbinar Centros de dados de IA
Uma opinião divergente veio do presidente da FERC, Willie L. Phillips, que argumentou que a ordem era “um retrocesso tanto para a fiabilidade eléctrica como para a segurança nacional”. Phillips acreditava que a PJM tinha abordado adequadamente as preocupações de fiabilidade na sua proposta e alertou que a decisão poderia prejudicar a liderança da América em domínios como a inteligência artificial, que dependem de infra-estruturas de centros de dados fiáveis. Por outro lado, o Comissário Mark Christie enfatizou que tais acordos de co-localização apresentam questões diferenciadas que poderiam ter impactos de longo alcance tanto na fiabilidade da rede como nos custos para o consumidor.
Complexidades de carga co-localizada
Cargas co-localizadas, onde grandes data centers são colocados próximos a usinas de energia para acessar diretamente a eletricidade, apresentam um conjunto único de desafios para a rede elétrica. Neste caso, a PJM e a Talen Energy argumentaram que o aumento da carga co-localizada poderia ser gerido sem problemas significativos. Ainda assim, a decisão da FERC enfatizou a necessidade de uma supervisão mais rigorosa, observando que a PJM não conseguiu apoiar adequadamente os desvios dos protocolos de transmissão existentes.
A Comissária Christie salientou que a aprovação desta alteração poderia abrir um precedente, permitindo acordos semelhantes no futuro que poderiam sobrecarregar ainda mais a rede. A necessidade de manter a fiabilidade e ao mesmo tempo acomodar as crescentes exigências dos centros de dados foi uma das principais razões para a rejeição da proposta.

A crescente demanda por energia para data centers
A ascensão da inteligência artificial e da computação em nuvem impulsionou um enorme aumento na demanda por capacidade de data center. Isto levou grandes empresas tecnológicas, incluindo a Amazon, a procurar soluções inovadoras para garantir a energia necessária para apoiar as suas operações. Apesar dos reveses regulatórios, a Amazon continua comprometida em expandir a presença de seu data center. A empresa também investiu US$ 500 milhões no desenvolvimento de pequenos reatores modulares (SMRs) para alimentar futuras instalações.
A rejeição do acordo energético de Susquehanna ilustra as complexidades de satisfazer as necessidades energéticas dos centros de dados de hiperescala, assegurando ao mesmo tempo a estabilidade da rede e custos justos para todos os utilizadores. Também destaca o desafio mais amplo de integrar arranjos energéticos não convencionais numa infra-estrutura energética já sobrecarregada.
O Comissário Willie Phillips apelou a uma abordagem mais pragmática às cargas co-localizadas, sugerindo que o actual quadro regulamentar precisa de evoluir para apoiar inovações como os centros de dados e a co-localização de energia nuclear. A rejeição da alteração, argumentou ele, perdeu uma oportunidade de responder às crescentes necessidades energéticas num cenário tecnológico em evolução.
Entretanto, a PJM e o sector energético em geral debatem-se sobre a melhor forma de integrar estas grandes cargas não convencionais no seu planeamento e operações. O debate em torno da proposta da Amazon pode provocar novas mudanças regulamentares, à medida que tanto os serviços públicos como os operadores de centros de dados trabalham para responder às crescentes exigências do mercado energético.
Créditos da imagem: Kerem Gülen/Ideograma